Numa montanha solitária, viviam dois eremitas que adoravam a Deus e se amavam um ao outro. Ora, esses dois eremitas tinham uma tigela de barro que era a única coisa que possuíam.
Um dia, um espírito mau entrou no coração do eremita mais velho, e ele procurou o mais moço e disse-lhe: “Faz muito tempo, já, que vivemos juntos. Chegou a ocasião de nos separarmos. Dividirmos nossos bens.”
Então, o mais novo entristeceu-se e disse: “Aflige-me, irmão, que tu me deixes. Mas, se tens necessidade de partir, seja assim.” E trouxe a tigela de barro e deu-a ao outro, dizendo: “Não podemos dividí-la, irmão. Que seja tua!”
Então, o eremita mais velhos disse: “Não aceito caridade. Não levarei nada que não seja meu. A tigela deve ser dividida.”
E o mais moço ponderou: “Se ela for quebrada, que utilidade terá para ti ou para mim? Se é teu desejo, lancemos antes uma sorte.”
Mas o velho eremita disse novamente: “Não quero senão justiça e o que me pertence, e não vou confiar a justiça e o que me pertence à sorte vã. A tigela precisa ser dividida.”
Então o eremita mais moço não pôde deixar de argumentar e disse: “Se é de fato teu desejo e se mesmo assim o querer, quebremos a tigela.”
Mas a face do eremita mais velho foi escurecendo excessivamente,e ele gritou: “Ó maldito covarde, não queres mesmo brigar.”
Gibran Khalil Gibran - O Louco